“Engole esse choro, moleque. Homem não chora!“, diz o pai ao seu filho pequeno.
Essa frase - ouvida e repetida incansavelmente - demonstra, a meu ver, como o machismo está incrustado nas nossas práticas patriarcalistas de “educação” (ou adestramento?) do menino e da menina.
Tragédias como o estupro da menina de 13 anos por garotos de famÃlias ricas de Florianópolis, ou como o assassinato de Eliza Samudio e de Mércia Nakashima, ao contrário do que possa parecer, não são casos isolados. Não surgem “do nada”, de um gene monstruoso, ou de um “gênio” psicopata, como muitas vezes querem fazer crer algumas interpretações que tenho visto na mÃdia.
Partir para interpretações desse tipo - “… loucos são eles” - nos exime comodamente da culpa e da responsabilidade de observamos atentamente à s nossas pequenas (mas letais) práticas violentas de estÃmulo ao machismo e ao ódio à s mulheres e - por contiguidade - ao ódio à s lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transgêneros.
A frase de Débora Diniz, em seu artigo Patriarcado da violência, exemplifica bem esse entendimento de violência como construção cultural:
A violência não é constitutiva da natureza masculina, mas sim um dispositivo cultural de uma sociedade patriarcal que reduz os corpos das mulheres a objetos de prazer e consumo dos homens.”
E como ressalta LuÃs Carlos Lopes, em seu artigo Crimes, machismo e vinganças, os acontecimentos e notÃcias mais prosaicos podem fazer parte dessa trama complexa que é a difisuão cotidiana da violência contra a mulher:
Todavia, os brasileiros mais atentos sabem que inúmeras mulheres apanham, algumas são torturadas, outras mortas e todas são desvalorizadas diariamente pelas grandes e pequenas mÃdias. Nestas, são tratadas como carne, bichos ou brinquedos masculinos. “
Os dados falam por si só. No artigo do blog Viomundo A Marcha Mundial das Mulheres, Conceição Oliveira alerta para o feminicÃdio em alguns paÃses da América Latina no ano passado (2009):
|
PaÃs |
Mulheres assassinadas em 2009 |
| Guatemala |
720 |
| El Salvador |
579 |
| México |
529 |
| Honduras |
405 |
| Argentina |
231 |
Esses números são trágicos, e o cenário é ainda mais aterrador se consideramos que, para cada assassinato de uma mulher ou menina, outras tantas são torturadas fÃsica ou psicologicamente. Mas esses “pequenas” violências do cotidiano não são divulgadas. É o que ressaltou a ministra Nilcéa Freire no fórum sobre o assunto (leia o artigo completo Violência contra as mulheres é diária):
Quando surgem casos, principalmente com pessoas famosas, que chegam aos jornais, é que a sociedade efetivamente se dá conta de que aquilo acontece cotidianamente e não sai nos jornais. As mulheres são violentadas, são subjugadas cotidianamente pela desigualdade”.
Basta olharmos atentamente para nossas estruturas sociais para vermos ainda a predominância patriarcal: cargos polÃticos, donos de empresas.
Mas como na prática tenho observado que o Estado alimenta um particular “amor ao poder”, e as empresas, um “amor ao lucro”, chamo a atenção aqui para as religiões que pelo menos pregam o amor ao próximo: quantas delas possuem, ou mesmo permitem, que mulheres ocupem suas estruturas hierárquicas mais altas?
Artigos citados:
- Patriarcado da violência - Débora Diniz
- Crimes, machismo e vinganças (por LuÃs Carlos Lopes)
- Violência contra as mulheres é diária, diz ministra Nilcéa Freire (por Vermelho)
- A Marcha Mundial das Mulheres
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